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 A eleição Viciada - Por Carlos Biasoli

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baba de ovo
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MensagemAssunto: A eleição Viciada - Por Carlos Biasoli   Ter Abr 29, 2008 7:17 pm



Foto: Ricardo Stuckert

Por Carlos Biasoli

Carl Dimos era um sujeito comum, nunca ocorrera nada de anormal em sua vida. Havia casado ainda jovem, trabalhava como advogado num escritório no centro da cidade, tinha dois filhos já adolescentes e uma casa razoavelmente confortável num condomínio fechado de classe média. E é certo que nunca foi um sujeito que se preocupou muito com eleições, no entanto, sempre votou como a maioria da população, que tem lá suas dúvidas e suspeitas, por que não. Mas é verdade que nunca votou em branco, muito menos nulo.

Porém, foi naquela inusitada noite que sua vida haveria de mudar, e foi quando estava sentado no sofá após o jantar e assistindo ao telejornal, daí que logo após o “boa noite” do apresentador, começou de imediato o horário eleitoral gratuito, nada de mais, todavia, no instante exato que começou uma vinheta de um dos candidatos, primeiro suas vistas lhe faltaram por frações de segundo, depois percebeu algo estranho, até que avistou o próprio candidato se oferecendo na tela, oferecendo melhores condições de vida e prometendo mundos e fundos, nada diferente até então... eis que começou a notar que havia algo, sim, de estranho; pois aquela boca, aqueles olhos de peixe morto, aquelas sobrancelhas espessas, aquele nariz avantajado e redondo, rugas, cicatrizes, tudo!, tudo mesmo era como se fosse seu. Não o suficiente, aquele olhar, aquela respiração, o jeito de mexer as mãos, e por fim, aquela tosse seca, eram também seus. Era ele!, não havia dúvida, mais ninguém. Era ele cuspido e escarrado quem falava na televisão, e pior, era ele quem pedia o seu voto.

Disfarçou, deduziu que se contasse a alguém, julgar-lhe-iam doido de pedra, pediriam sua interdição na justiça, colocariam uma camisa de força, e, findo o processo, dar-lhe-iam talvez, até choques como faziam com os loucos.

Levantou-se cambaleante e foi à cozinha beber um copo d’água; era vertigem, só podia ser. Quando voltou sentiu-se aliviado, porque a propaganda do candidato estava pra terminar, passava um clipe com uma família feliz correndo por um jardim. Fechou os olhos até começar a propaganda do outro candidato. Ouviu a voz de uma apresentadora que anunciava a fala do “seu” candidato após as denúncias de negligência administrativa num posto médico lá na periferia.

E o concorrente começou a falar, e, enquanto falava, Dimos se mantinha de olhos fechados, mas não, aquela voz, aquelas entonações nos começos e finais de cada frase, eram suas! Suas! Suas! Abriu de forma lenta suas pálpebras e notou de imediato, uma nova cor – a do partido do candidato – e um outro número no canto esquerdo da tela. Mas suas suspeitas eram reais. Era ele mesmo. Novamente era ele quem falava e pedia seu voto e, mais, falava mal do outro candidato, também, ele mesmo. Ficou sem entender nada, o que é compreensível numa situação dessa.

Foi que vomitou no sofá, de nervoso, assim disse para a esposa que o indagava o por que dele ter emporcalhado sua mobília. Nervoso por quê? Problemas no escritório e só, foi o que resmungou. Pensou numa noite de sono, pensou em procurar um médico na semana que vem, e com alívio, pensou nos seus problemas habituais. E dormiu um sono pesado.

No dia seguinte quando acordou, havia esquecido o ocorrido. Levantou-se disposto, evitou o jornal, tomou seu café da manhã reforçado e saiu. Na esquina avistou o primeiro cartaz dependurado com sua imagem, e assim avistou outro cartaz e mais outro e mais outro e mais outro e viu um imenso outdoor com sua imagem sorrindo com os seguintes dizeres: “Por uma cidade mais humana”, outro, com ele em novas roupas e com a palavra “Mudança” abaixo. Na verdade, tudo já beirava à loucura.

E assim foi que uma semana inteira se passou até o dia final do pleito. Semana essa que Dimos fez-se alienado, não leu os jornais e revistas, não assistiu televisão, evitou o rádio, e quando o assunto era eleição, tratava de esquivar-se, quando não, retirava-se com uma desculpa qualquer. Evitou até sua esposa. Pois, não sabia dizer se era ele ou se eram os outros a ocupar aquele seu velho corpo.

No dia final, a caminho da votação enxergava estampado na camiseta das pessoas, seu rosto sorridente com cores e números diferentes.

Como as pessoas não o reconheciam, teve a certeza que o problema era com ele próprio e não diferente. Só que, quando na seção de votação, entrou, percebeu os sorrisos largos dos mesários. E, enquanto entregava seu título de eleitor para conferência, o primeiro flash surgiu premeditando vários que vieram depois advindos da porta aonde os repórteres se acotovelavam ferozmente em busca da melhor foto do candidato.

Sentiu pena de si e daquelas pessoas. Era uma maldição, só haveria essa explicação. Apertou o primeiro número e viu surgir sua foto, apertou o botão “CANCELA”; apertou o outro número e viu surgir de novo sua foto, no reflexo apertou “CANCELA” novamente. Por fim, todos o fitavam em silêncio, atrás da cabina. Apertou um número diferente e confirmou, anulando seu voto. E foi assim que se sentiu aliviado e cheio de esperança por suspeitar que aquela maldição terminara...

Contudo, ao sair ouviu de um dos repórteres presentes: “Candidato, faça o V da vitória para uma foto”. E ele fez.


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ferrugem
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MensagemAssunto: Re: A eleição Viciada - Por Carlos Biasoli   Qua Abr 30, 2008 10:22 pm

Biasoli é famoso por seus poemas lá no portal do vale tudo.
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